Como Harry Styles ganhou 'sósias' no pop e se distancia deles em novo disco
Harry Styles mostra lado mais 'experimental' e dançante em disco novo Harry Styles está de volta. Ele lança o álbum "Kiss All The Time. Disco, Occasionally"...
Harry Styles mostra lado mais 'experimental' e dançante em disco novo Harry Styles está de volta. Ele lança o álbum "Kiss All The Time. Disco, Occasionally" nesta sexta (6) e dá para dizer que o disco é experimental — para os padrões dele, pelo menos. O músico andava sumido, ausente dos holofotes desde 2023, e sua ausência foi sentida. Surgiram vários "sósias" de Styles nos últimos anos: Sombr, Role Model e Benson Boone são alguns dos artistas que parecem ter várias fotos de Harry salvas no Pinterest. Mas até o momento, nenhum deles chegou perto do Harry Styles "original", e não só no quesito fama. Entenda por que cantor tem tantos "sósias" e como o disco novo o distancia dos seus herdeiros: O molde do popstar branco Sombr, Role Model e Benson Boone são alguns dos popstars que seguem o 'molde Harry Styles' Reprodução Não é que Harry Styles seja um grande pioneiro. A questão é que o músico representa um novo parâmetro para a atualidade: em uma época em que o público prefere artistas mais diversos, o cantor mostrou que ainda é possível ser idolatrado, mesmo sendo... um homem branco. Ele segue uma fórmula bastante eficaz. Harry está confortável em expressar feminilidade (sua sexualidade é um ponto de interrogação, mas suficiente para atrair fãs hétero e LGBTQ+); não se apropria da cultura negra; tem o respeito de ídolos, de Stevie Nicks a Elton John... e, acima de tudo, não encarna a masculinidade agressiva que muitas vezes domina o rock e suas vertentes. Harry é discípulo assumido de nomes como Bowie, Freddie Mercury e Prince, artistas que sempre dobraram as regras da expressão masculina na música. E ainda que siga dicas de seus ídolos, ele arrisca muito menos, tentando se manter no lado menos "cancelável" e problemático possível. Nem sempre dá certo. Harry já foi acusado de queerbaiting, teve sua cota de tretas públicas.... e simbolicamente, se envolveu em uma polêmica em 2023, após levar o Grammy de Álbum do Ano e dizer que "isso não costuma acontecer" para pessoas como ele (naquela época, Beyoncé era a grande favorita e o prêmio já tinha fama de racista). Ou seja, talvez o próprio Harry tenha dificuldade em enxergar o nível de privilégio de ser um homem branco no topo da indústria. Depois desse infame discurso, inclusive, Harry precisou de um “sumiço” para voltar às graças do público geral. Mas é interessante ver que, em sua ausência, ninguém ocupou exatamente esse lugar. Por mais que tenham tentado. Harry Styles no clipe de 'Lights Up' (esquerda) e Role Model no clipe de 'Oh Gemini' (direita) Reprodução/YouTube Os novatos Sombr e Role Model têm bombado desde 2025, principalmente no TikTok e entre fãs mais jovenzinhos. Claro, há uma ou outra diferença na parte musical. Mas no que diz respeito à estética, quem vê os dois pode ter um déjà vu. Benson Boone, então, parece um híbrido bastante caricatural de Styles e de Freddie Mercury. Mas não chega perto nem de um, que dirá do outro. Difícil dizer o quanto esses artistas querem ser Harry e o quanto a indústria os colocou nesse lugar. Dá pra imaginar executivos de terno, revendo os passos do ex-One Direction e obrigando os novatos a fazer parecido. Que gravadora não quer ter um Harry Styles? Em parte, tem dado certo: os novatos têm ganhado streams, fama, indicações ao Grammy, e por aí vai. De volta à cena, Harry ganhou uma "concorrência" no mundinho pop masculino que ele mesmo ajudou a criar. Mas ainda há algo no britânico que os sósias não alcançam, uma característica que o colocou no posto de popstar descolado dominante — e que aparece nesse disco. É que, mesmo tendo suas próprias referências, Styles busca não entrar na modinha... e ainda hoje, tenta fazer a própria. Todo mundo quer ser aquele Harry Styles, menos ele Harry Styles no clipe de 'Aperture', lead single de 'Kiss All The Time. Disco, Occasionally.' Divulgação/Stella Blackmon O engraçado é que, enquanto está na moda ser Harry Styles, ele decidiu tentar ser outra coisa. "Kiss All The Time. Disco, Occasionally" é o álbum mais "experimental" da carreira de Styles. Leia crítica completa. O disco é inspirado pelo tempo em que Harry foi mais gente como a gente (ou o mais próximo disso, já que ainda era um ricaço na Europa). Ele foi avistado fazendo maratonas, passeando pelas ruas de Roma e até acompanhando o anúncio do novo Papa em 2025. Além disso, o cantor diz que andou indo muito em shows e baladas, vendo tudo de um lugar que ele nunca esteve: do meio da multidão. Isso se reflete na produção e na mixagem de "Kissco" (apelido que o álbum ganhou dos fãs porque, convenhamos, que título enorme). Nesse disco, a voz de Harry aparece quase sempre processada, mergulhada em efeitos e dobras, e raramente é a protagonista das músicas. É como se ele estivesse com você no meio da galera, cantando enquanto uma batida eletrônica ecoa no fundo. Isso já é uma dica de como esse álbum vai por um lado pouco óbvio para Harry. Afinal, ele se fez como cantor de pop rock nostálgico, uma espécie de membro do Fleetwood Mac com roupas estampadas de coração. Mas "Kissco" mostra um lado moderninho do músico, que não ganhou a fama de descolado à toa. De modo geral, Harry abandona aquela estrutura típica de canção pop com refrão chiclete. Muitas músicas crescem e se revelam aos poucos, com loops, sintetizadores e trechos instrumentais dançantes. O conjunto está lembra o dance pop indie, na linha de Metronomy e Bloc Party, digno do line-up do Lollapalooza nos anos 2010. Harry Styles em foto para o disco 'Kiss All The Time Disco Occasionally' Divulgação O disco não é uma obra-prima impecável, mas sem dúvidas traz um frescor à discografia dele. Harry nitidamente ganhou inspiração e fôlego ao fugir um pouco dos holofotes. Afinal, até estrelas pop precisam viver. E sempre é animador ver um artista desse porte tentar novos caminhos, sem medo de desagradar os fãs das antigas. No fim das contas, é isso que separa os hitmakers de hoje dos popstars que seguem relevantes ao longo do tempo. E é o que coloca Harry um pouco à frente, pelo menos por enquanto, dos sósias que têm vindo por aí.